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| Wednesday, May 02, 2007 |
| vale a pena ler de novo |
Terça-feira, Fevereiro 21, 2006 Cristine era linda, inteligente, interessante e ainda sabia cozinhar! Fazia faculdade, estagiava, estava quase sendo efetivada por sua competência e talento.Tinha um gosto apurado; ouvia boa música, assistia a bons filmes, lia bastante e de tudo, desde o jornal mais furreca até revistas especializadas em física quântica. Não que ela pudesse dar aulas da última, mas não boiaria tanto quando alguém falasse sobre assuntos relacionado. Ah, sim! Ela podia conversar sobre qualquer coisa com você, pois certamente já ouviu algum comentário e, se não, está sempre disposta a ouvir e adquirir novos conhecimentos. Gênio? Não, Cristine é uma pós-garota normal. Teve boas oportunidades e soube aproveita-las. Pode acreditar, mas ela nunca viajou ao exterior, apesar de visitar sites na internet onde criava itinerários para possíveis viagens. Sim, Cristine sonhava! Ela tinha apenas 23 anos, mas já se considera velha pra certas coisas, mas no fundo é uma menina ainda, que se comprazia com desenhos na TV e festas com temáticas nostálgicas. Queria casar e ter filhos, trabalhar e ter o bastante para garantir conforto à sua família. Quer levar os filhos à Disney e tirar uma foto com o Pato Donald! Ela sempre gostou dele, mas também queria saber por que diabos ele se cobre com uma toalha ao sair do banho, se no dia- a -dia ele não usa calças!! Cris [ como os íntimos a chamavam], tinha muitos conhecidos e seletos, mas verdadeiros amigos. Ela tinha um namorado também. Ela estava apaixonada, o amava mais que tudo e planejava todo um futuro com ele. Roberto, ou Betino para os amigos, era muito parecido com Cris. Tinha sonhos parecidos, era estudado e batalhador. Era um rapaz deveras bonito! Ele não admitia, mas as mais assanhadas não se controlavam ao vê-lo e, Cris achava isso uma falta de respeito e morria de ciúme! ¿¿- Eu amo é você ¿ dizia ele.¿¿ Ela acreditava. Na verdade ele a amava mesmo , mas as facilidades fazem com que muitos percam a cabeça de vez em quando. Cris e Betino tinham um relacionamento bastante harmonioso. Saiam sempre, faziam programas mais românticos também, iam ao cinema, a boates... Ok, eles brigavam também, mas que casal não briga? Engraçado como aquele relacionamento era diferente dos passados para ambos. Era mais maduro, mais verdadeiro, consistente. Cris sentia-se segura. Estavam sempre juntos e isso fazia um bem danado a ela. Um dia, Betino ligou pra namorada e disse que precisava conversar com ela. Era urgente e não podia esperar mais que a hora do almoço. Eles trabalhavam mais ou menos perto um do outro e marcaram num restaurante no Centro da cidade. Era por volta de meio-dia e meia e o local estava lotado. O barulho era angustiante, pessoas falando, rindo, garfos batendo no prato, pessoas mastigando sem educação, ¿¿bom apetite¿¿, ¿¿boa tarde¿¿, ¿¿volte sempre¿¿... Até que Betino chegou. Estava acompanhado de uma mulher que Cris supôs ser uma colega de trabalho. Não tinha certeza, mas cria já ter visto alguma foto dela no fotolog ou orkut do namorado. Eles meio que se despediram com dois beijinhos no rosto e Cris não gostou, mas pensou estar exagerando e resolveu abstrair. Betino foi ao seu encontro e deu-lhe um beijo seco. ¿¿- Oi, amor! ¿ disse ela amorosa e preocupada¿¿. De maneira seca e até um pouco preocupada, o rapaz disse que precisavam conversar. A moça ficou nervosa, mas logo o moço começou a discursar. Ele lembrou de como se conheceram, de como foi mágico o momento, de tudo de bom e ruim que passaram, de como foram fortes ao superarem crises, boatos, fofocas, doenças, decepções... ¿¿Estamos juntos há quatro anos e cinco meses ¿ pensou ela ¿ ele não vai terminar comigo. Não vai! Não pode!¿¿. Fez-se silêncio. Eles olhavam-se. Estavam sérios, Cris quase chorando. Betino parecia não conseguir dizer alguma coisa que faltava. Ela o encarava, desafiando- o . Foi como uma bomba. Após todo aquele solilóquio do namorado ela ouviu o que temia, que ele queria terminar com ela, pois não estava mais apaixonado como antes e conhecera outra pessoa por quem nutria um sentimento muito especial. Disse que pensou muito e que ainda gostava muito de Cris, mas as coisas mudaram e o que era homem-mulher agora não passava de amor de irmãos, de amigos. Disse que era muito grato por tudo, mas não sentia-se mais feliz. Rolou uma lágrima pela face de Cris. Ela estava realmente triste ,mas seu orgulho a impediu de ¿¿descer do salto¿¿. Concordou em terminar, mas quis saber alguns detalhes. Quem era ela e por quê ? O que a outra possuía e ela não ? Sabem , aqueles típicos questionamentos femininos. Será que ela era mais bonita, mais rica, mais interessante? O [ex] namorado disse não querer fazer comparações, pois cada uma possuía suas qualidades. Completou dizendo que queria o bem de Cris e estaria á sua disposição para qualquer coisa, propôs que continuassem amigos, mas a moça achou melhor não. ¿¿-Suma de minha vida!¿¿. Ele assentiu . Cristine correu para o carro e enfim, pôs-se a chorar, xingar, repudiar, rogar pragas, bolar planos de vingança... ¿¿Por que ? Eu sempre fiz tudo por ele.¿¿ Ligou para o chefe, que era seu amigo e explicou que tivera problemas e, por isso não voltaria mais naquele dia. Cristine não voltou mais... não naquela semana. Ao chegar em casa, correu para o computador e buscou sua rival nos contatos do orkut do [ex] namorado. Ficou absorta. Não entendia como aquilo tinha acontecido, pois a outra era toda errada. Ela era feia, maltratada. Seus cabelos espetavam, sua pele não era sedosa, ela não tinha postura, era baixa demais. Cris viu até algumas gordurinhas pulando pra fora em algumas fotos. Em suas comunidades encontrou pérolas como : ¿¿ Nunca sei se é sejE ou sejA¿¿, ¿¿Não danço, piso no cacau¿¿, ¿¿Sou cachorra sim, quer ser meu dono?¿¿ e por aí vai. Ela era toda errada, não era bonita, era burra e vulgar. Mas Cristine foi trocada e padeceu por amar alguém como Betino. Como ele podia te-la trocado por tal aberração? Pensava conhecer o [ex] namorado como ninguém, mas decepcionou-se. Havia fracassado. Sentia-se a mais infeliz do mundo A vida seguiu, ainda que nunca tivesse entendido o acontecido. Não desejou felicidades, mas eles casaram-se, enquanto ela realizava seus sonhos e viajava mundo afora. O tempo passou e Cris já havia se formado em Direito e Medicina. Foi difícil ,mas aos 30 anos era relativamente bem sucedida. Conheceu Antônio e casaram-se. Tiveram dois filhos e eram felizes. Cristine amava-o ,mas não demonstrava o quanto. Tornou-se uma pessoa receosa e reservada. Não queria ser trocada mais uma vez por qualquer baranga que aparecesse. Cuidava da saúde e da beleza. Aos quarenta e três anos, aparentava trinta. Tinha seu próprio consultório, era realizada, senão por um único detalhe: alguém carregara consigo parte dela, algo que ela nunca conseguiu compensar, tampouco entender o que era. Certo dia, adentrou num dos hospitais que trabalhava uma mulher, muito acabada, estava acompanhada por uma moça grávida e dois rapazes. Nos braços dos últimos, havia um homem, estava desmaiado. Os outros estavam em prantos, nervosos, chorando. ¿¿-Salve meu marido! Te imploro! Ele precisa conhecer o neto!¿¿ Cristine ficou sem ação. Era Betino e sua família. Em pouco tempo ele seria avô, título que não cansava de ostentar mesmo antes do nascimento do neto. A criança tão desejada seria seu maior motivo de felicidade. Isso se sobrevivesse. A médica, naqueles 2 segundos que mais parecem um cinema onde passa-nos toda a nossa vida, lembrou o quão fraca ficou quando recebeu a notícia do rompimento, como sofrera, como sua vida se transformou, como tornara-se apagada e incompleta. Como aquele homem tinha feito um estrago em sua vida. Pensou em não atende-lo ,mas e seu juramento? Ah, mas ele também jurava amor eterno a ela e não cumpriu. Pensou. Ela tinha marido e filhas. Era uma família feliz. Ordenou que o levassem para a sala de cirurgia. Ela mesma ia cuidar de seu caso. Parece que a esposa de Betino não a reconheceu, pois não havia comentado nada e agradecia muito a ela. Cristine não cobrou nada, mas pediu um favor aos familiares de Betino. Nunca conterem a ele seu nome. Transformar a Dra. Cristine Cavalcalcante em Maria da Silva, Paula Regina ou qualquer outro nome, mas que , como estaria fazendo ¿¿caridade¿¿ por não cobrar, não queria seu nome divulgado. Todos concordaram. Nesse momento, Cris sentiu que a esposa de Betino encarou-a com uma expressão curiosa. Era uma mistura de gratidão, com vergonha, com raiva e até mesmo recalque. Fingiu não ter visto e foi embora. As últimas linhas do diário de Cristine naquele vinte e quatro de fevereiro foram: ¿¿... Não podia deixar que aquele homem morresse. É duro ter que admitir, mas ele sempre foi o grande amor de minha vida, puro, sem interesse algum, senão a felicidade. Por obra do destino fomos separados.O vazio dentro de mim é proveniente de sua ausência. Se deixasse ele ir, levaria parte de mim com ele e então eu mesma começaria a morrer aos poucos. Descobri que o que o deixava vivo, era esse pedaço de mim que ele carregava.Até hoje não sabia porque tinha sido trocada por alguém tão inferior a mim, mas isso não me importa mais. No momento em que a mulher me encarou pude perceber que também sempre fui o verdadeiro amor de Betino. Ele ainda me ama e não faz questão de esconder isso da esposa. Por isso sua mágoa, seu rancor e sua vergonha. Ela levou seu corpo, mas não seu coração. Ele estava arrependido, mas , assim como eu, continuará fiel à mulher que desposou e aos filhos. Ainda que dentro dele, esteja sempre acesa a chama chamada Cristine.¿¿ |
posted by Lee Bueno @ 4:30 PM  |
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